O violão é um instrumento muito versátil e bastante divertido de se aprender. Integrante da família dos cordofones, é um instrumento de cordas pulsadas (dedilhadas) com uma característica híbrida de instrumento harmônico e melódico. Transita por diferentes estilos e repertórios, protagonizando musicalmente tanto como solista quanto acompanhador do canto e de outros instrumentos. Sua história remonta instrumentos ancestrais desde o século XVI, tais como as guitarras renascentistas e barrocas, a vihuela de mano, os alaúdes, e a guitarra clássica de seis cordas, seu ancestral mais próximo que surge em finais do século XIX. Desta forma, o violão é herdeiro de uma enorme tradição técnica e musical dos instrumentos de cordas dedilhadas, além de possuir o seu próprio repertório. Também é um instrumento musical consagrado em nossa cultura musical brasileira e latinoamericana.
Uma das principais ideias filosóficas que embasam a metodologia Suzuki é a importância das condições adequadas do ambiente para o crescimento musical dos alunos. Todos os indivíduos podem aprender, desde que os elementos propícios para o seu desenvolvimento estejam presentes no ambiente. Assim, alguns aspectos são fundamentais para um bom andamento do processo de aprendizagem, quais sejam:
Tamanho do instrumento: observa a faixa etária ou estatura do aluno, pois um instrumento muito grande ou muito pequeno cria uma série de obstáculos de ordem técnica e ergonômica;
Cadeira de assento reto sem braços e uso de apoio ergonômico: permite manter a coluna erguida e um adequado alinhamento dos ombros (ergonomia);
Ter no ambiente o hábito de se ouvir música: se pensarmos como aprendemos a falar, inicialmentesomos expostos a língua, absorvendo-a através da audição e por processos de imitação e repetição, para somente depois sermos apresentados aos processos de escrita e leitura. Conhecer as músicas que o aluno está aprendendo ou que irá aprender é fundamental tanto para o processo de ensino e aprendizagem – especialmente nos anos iniciais de formação – quanto para a ampliação do conhecimento de diferentes linguagens musicais e estilos;
Manter um cuidado adequado com o comprimento e polimento das unhas: no início as crianças não utilizam unhas, mas com o passar do tempo o repertório do violão passa a exigir sua utilização nos dedos da mão direita, o que exige um cuidado com o lixamento e polimento adequado das unhas desta mão para a obtenção de um toque eficaz e uma sonoridade de boa qualidade. Com relação aos dedos da mão esquerda, as unhas precisam estar sempre bem curtas para facilitar a ação dos dedos na pressão das cordas contra a escala.
Do ponto de vista técnico, o violão é um instrumento cuja ação das mãos é assimétrica. Vale dizer: enquanto a mão esquerda é a responsável por pressionar as cordas em diferentes setores da escala do instrumento (muitas vezes prendendo notas em diferentes cordas simultaneamente), fica a encargo da mão direita a tarefa de pulsar as cordas e de manter a propulsão rítmica da música. Existem centenas – quem sabe milhares – de livros de técnica de violão com exercícios para o desenvolvimento da técnica de ambas as mãos. Todavia, uma das abordagens fundamentais para a manutenção da motivação do aluno no decorrer do processo é aprender música através da própria música. Não há que se duvidar da importância dos exercícios técnicos no refinamento da técnica. Contudo, exercícios podem por vezes serem extremamente monótonos se descontextualizados de seu objetivo. Utilizar estratégias metodológicas adequadas e motivadoras ao desenvolvimento progressivo das habilidades técnicas do aluno, bem como ter o repertório organizado de forma progressiva é uma das peças chaves para o sucesso. A partir disto torna-se possível trabalhar a técnica dentro do próprio repertório, pois está implicitamente contida no mesmo, e a habilidade desenvolvida em uma peça serve de degrau para o aprendizado da seguinte. Em nossa metodologia, o repertório está criteriosamente selecionado e organizado de forma rogressiva em uma coletânea de livros das músicas objetivando o pleno desenvolvimento das habilidades necessárias para qualquer indivíduo tornar-se um grande violonista. Todos os livros possuem os respectivos áudios de referência para as audições em casa, a qual é papel dos pais proporcionar no ambiente da criança.
É perfeitamente possível aprender violão em qualquer idade. A pedagogia de instrumentos musicais com as crianças bem pequenas exigem estratégias metodológicas adequadas e lúdicas, e com o violão não é diferente. Como dizia o professor Suzuki, o talento nada mais é do que uma determinada habilidade repetida muitas vezes. Como forma de engajarmos as crianças a aperfeiçoar suas habilidades muitas situações requerem que o professor entre no universo da criança e lance mão de jogos e de brincadeiras para atingir o seu objetivo. Outro ponto fundamental no crescimento musical dos alunos é o envolvimento da família. A presença dos pais nas aulas é crucial, pois além de organizarem o ambiente de estudo e de serem os olhos do professor em suas casas, são o principal alicerce emocional das crianças. Para auxiliar de forma eficiente os filhos em suas casas, aprendem aspectos básicos do instrumento como a postura, técnica básica, afinação e sonoridade, localização das notas musicais nas cordas soltas e na escala, nome das diferentes partes do violão, dentre outros. Durante as aulas, observam e tomam notas dos principais aspectos a serem reproduzidos em suas casas, e são os responsáveis por criar momentos de audições das músicas. Para os adultos, as aulas levam em consideração os seus respectivos objetivos com a aprendizagem. Alguns gostariam de iniciar do zero; outros retomar um estudo iniciado, mas que devido às circunstâncias da vida foi interrompido; outros realizar uma preparação para ingresso em um curso superior de música, aperfeiçoar ou ampliar o seu nível de prática musical atual. Os objetivos são diversos, mas para cada caso está sempre presente a ideia de que o talento não é algo inato ou genético, e sim uma habilidade que pode ser desenvolvida em qualquer fase da vida. Outro aspecto fundamental da filosofia Suzuki é o fato de que as crianças aprendem umas com as outras, e a aula coletiva é o principal ambiente no qual elas colocam em perspectivas as habilidades que desenvolvem nas aulas coletivas. Na aula coletiva há um efeito de espelhamento: os alunos mais novos enxergam nos mais adiantados um modelo a ser atingido; os mais adiantados se sentem responsáveis em auxiliar os mais novos, nutrindo sempre um senso cooperativo, e nunca de competição. É nas aulas coletivas que a organização do repertório mostra também sua importância: todos conseguem tocar as mesmas músicas, e a partir desta base em comum criar atividades que ressignificam as peças para os alunos. É também um ambiente onde as famílias se encontram e desfrutam do crescimento musical e humano de seus filhos.
Eduardo Pastorini